sábado, 29 de setembro de 2012

1° Capítulo: A Marca de Atena (completo)

 
ATÉ SE ENCONTRAR COM UMA ESTÁTUA EXPLOSIVA, Annabeth achou que estava preparada para qualquer coisa.
     Ela passou por todo o convés do navio de guerra voador deles, o Argo II, checando duas vezes as balistas para ter certeza de que estavam bloqueadas. Ela confirmou se a branca bandeira de "Nós viemos em paz" estava voando do mastro. Ela revisou o plano com o resto da tripulação - e o Plano B, e o Plano B, para o Plano B.
     Mas importante, ela deixou de lado seu acompanhante louco por guerra, Treinador Gleeson Hedge, e o encorajou a tirar a manhã de folga em sua cabine e vendo reprises de campeonatos de Artes Marciais Mistas. A última coisa que eles precisavam em um trirreme Grego mágico indo em direção a um acampamento romano potencialmente hostil, era um sátiro de meia idade com roupas de ginástica e segurando um bastão e gritando "Morra!"
     Tudo parecia em ordem. Até aquele frio misterioso que ela vem sentindo desde que o navio lançou se dissipou, pelo menos, até agora.
     O navio de guerra desceu através das nuvens, mas Annabeth não pode parar de se perguntar. E se for uma péssima ideia? E se os Romanos entrarem em pânico e os atacaram quando estiverem à vista?
     O Argo II definitivamente não parecia amigável. Duzentos metros de comprimento, um casco banhado em bronze, montado com escudos que se repetiam da parte fronteira até a parte traseira do navio, na frente, a cabeça representativa de um dragão flamejante, e duas balistas rotativas que podem lançar pequenos explosivos suficientemente forte para explodir concreto... bem, não era o passeio mas apropriado para dizer um olá aos vizinhos.
     Annabeth tentou avisar os Romanos. Ela pediu para Leo enviar uma de suas invenções especiais - um pergaminho holográfico - para alertar seus amigos dentro do acampamento. Esperamos que eles vejam a mensagem. Leo queria pintar uma mensagem gigante no casco do navio - E AEE? com uma carinha feliz - mas Annabeth vetou a ideia. Ela não sabia se os Romanos tinham senso de humor.
     Tarde demais para voltar atrás.
     As nuvens se dissiparam ao redor do casco, revelando o carpete dourado-e-verde de Oakland Hills abaixo deles. Annabeth agarrou um dos escudos de ferro a estibordo.
     Os seus três acompanhantes se posicionaram.
     Na popa, Leo corria de um lado para o outro como um louco, verificando medidores e indicadores de níveis. A maioria das pessoas ficaria satisfeita com um timão ou com um leme. Leo também instalou um teclado, um monitor, controles de aviação da Learjet (uma fabricante de aeronaves nos EUA), um dubstep soundboard (programa de mixagem), e um controle de movimentos com sensor de um Nintendo Wii. Ele poderia virar o navio puxando o acelerador, lançar armas pela mostragem de álbuns, ou levantar as velas sacudindo os controles do Wii muito rápido. Até mesmo para os padrões de um semideus, Leo tinha um caso sério de hiperatividade.
     Piper andava de um lado para o outro entre o mastro principal e um balista, praticando suas falas.
     - Abaixem suas armas, - Ela murmurou - Nós só queremos conversar.
    Seu charme era tão poderoso, que suas palavras fluíram sobre Annabeth, enchendo-a com o desejo de largar a sua adaga e ter uma longa e amigável conversa.
     Para uma filha de Afrodite, Piper fez um grande esforço para minimizar sua beleza. Hoje ela vestia jeans esfarrapados, tênis desgastados, e uma regata com desenhos cor-de-rosa da Hello Kitty. (Talvez fosse uma brincadeira, mas Annabeth nunca poderia ter certeza com Piper.) Seu irregular cabelo marrom estava trançado para o lado direito, com uma pena de águia.
     E também havia o namorado de Piper, Jason. Ele estava na plataforma superior da proa, onde os Romanos poderiam facilmente enxergá-lo. As articulações de seus dedos estavam brancas no punho de sua espada de ouro. Por outro lado, ele estava bastante calmo para um cara que estava se fazendo de alvo. Por cima de seus jeans e de sua camiseta do Acampamento Meio-Sangue, ele usava uma toga e uma capa roxa, símbolos de sua antiga posição como pretor. Com um cabelo despenteado pelo vento e seus gélidos olhos azuis, ele estava lindo e controlado, assim como um filho de Júpiter deveria ser. Ele cresceu no Acampamento Júpiter, então esperamos que seu rosto familiar faça os Romanos hesitarem antes de explodirem o navio no céu.
     Annabeth tentava esconder isso, mas ela não confiava muito nesse cara. Ele agia perfeito demais, sempre seguindo as regras, sempre fazendo algo honroso. Ele até aparentava ser perfeito demais. No fundo de sua mente, havia uma irritante voz que dizia: E se isso for um truque e ele nos traiu? E se chegarmos ao Acampamento Jupiter e ele disser:
     - Hey, Romanos! Olhem esses prisioneiros e esse navio legal que eu trouxe para vocês!
     Annabeth duvidava que isso poderia acontecer. Mesmo assim ela não conseguia olhar para ele sem sentir um gosto amargo na boca. Ele fez parte da "troca" de Hera para apresentar os dois acampamentos. Sua Majestade Mais Irritante, Rainha do Olimpo, convenceu os outros deuses de que seus dois "tipos" de filhos - Romanos e Gregos - teriam que combinar forças para salvar o mundo da deusa do mal Gaia, que está despertando da terra, junto com seus terríveis filhos, os gigantes.
     Sem avisar, Hera tinha arrancado Percy Jackson, namorado de Annabeth, apagado sua memoria, e mandá-lo para um acampamento Romano. Em troca, os Gregos receberam Jason. Não que isso tudo seja culpa de Jason; mas toda a vez que Annabeth o via, ela lembrava do quanto ela sentia falta de Percy.
     Percy... que pode estar em algum lugar abaixo deles nesse exato momento.
     Oh, deuses. O pânico brotou dentro dela. Ela tentou arrancar o pânico dela. Ela não podia se dar ao luxo de se sobrecarregar.
     Eu sou uma filha de Atena, ela disse para si mesma. Eu tenho que seguir o meu plano, e não me distrair.
     Ela sentiu de novo - aquele familiar calafrio, como se um boneco de neve psicótico tivesse se arrastado até suas costas e estivesse respirando abaixo de seu pescoço. Ela se virou, mas não havia ninguém ali.
     Devem ser os nervos. Até mesmo em um mundo de deuses e monstros, Annabeth não poderia acreditar que um navio de guerra novinho estivesse assombrado. O Argo II fora bem protegido. Os escudos de bronze celestial ao longo do casco foram encantados para afastar os monstros, e seu sátiro a bordo, teria farejado qualquer intruso.
     Annabeth desejou poder rezar para sua mãe em busca de orientação, mas isso não seria possível agora. Não depois do mês passado, quando ela teve aquele horrível encontro com sua mãe e recebeu o pior presente de sua vida...
     O frio a pressionou ainda mais. Ela pensou que ouviu uma voz ao vento, rindo.Todos os músculos de seu corpo ficaram tensos. Algo estava prestes a dar terrivelmente errado.
     Ela quase ordenou para Leo reverter o curso. Então, no vale abaixo deles, cornetas soaram. Os Romanos haviam visto eles.
     Annabeth achou que sabia o que esperar. Jason havia descrito o Acampamento Júpiter com grandes detalhes. Mesmo assim, ela teve dificuldade de assimilar o que seus olhos viam. Rodeada por Oakland Hills,  o vale era, pelo menos, duas vezes maior que o Acampamento Meio-Sangue. Um pequeno rio serpenteava em torno de um lado e enrolava em torno do centro como a letra G maiúscula, desaguando em um brilhante lago azul.
     Exatamente abaixo do navio, situado na margem do lago, a cidade de Nova Roma brilhava ao Sol. Ela reconheceu alguns marcos que Jason já havia falado - o hipódromo, o coliseu, os templos e os parques, o bairro Seven Hills com suas ruas sinuosas, vilas coloridas, e jardins floridos.
     Ela viu evidencias de recente batalha Romana com um exercito de monstros. A cúpula estava rachada em um prédio que ela supôs ser a Casa do Senado. A praça ampla do fórum estava repleta de crateras. Algumas fontes e estátuas estavam em ruínas.
     Dezenas de crianças em togas saiam da Casa do Senado, para obter uma visão melhor do Argo II. Mais Romanos emergiram dos cafés e lojas, falando sobre e apontando para o navio que descendia.
     Mais ou menos meia milha à Oeste, onde as cornetas soaram, havia um forte Romano em uma colina. Parecia com as ilustrações que Annabeth via em seus livros de História Militar. - Com uma linha defensiva com picos de trincheira, enormes paredões, e torres de visão armadas com balistas de escorpião. Dentro do forte, barracas brancas seguindo uma linha forrando a estrada principal - a Via Principalis.
     Uma coluna de semideuses emergiram dos portões, armados com lanças cintilantes enquanto corriam em direção da cidade. No meio da multidão havia um elefante de guerra de verdade.
     Annabeth gostaria de pousar o Argo II antes das tropas chegarem, mas o chão ainda estava a centenas de metros de distância. Ela examinou a multidão, esperando encontrar Percy.
     Quando algo fez BOOM!
   
     A explosão quase a lançou para fora do navio. Ela se virou e seus olhos se encontraram com os olhos de uma estátua furiosa.
     - Inaceitável! - ele gritou.
     Aparentemente, a explosão o levou até lá, no convés. Uma sulfurosa fumaça amarela rolou por seus ombros. Cinzas surgiram em torno de seu cabelo encaracolado. Da cintura para baixo, não tinha nada a não ser um pedestal de mármore. Da cintura para cima, ele era uma figura muscular vestindo uma toga.
     - Nós não permitimos armas dentro da Linha Pomeriana! - ele anunciou com uma voz de professor rigoroso - E com certeza nós não temos gregos aqui!
     Jason lançou um olhar para Annabeth que dizia "deixa comigo!"
     - Términus, - ele disse - Sou eu. Jason Grace! 
     - Oh, eu me lembro de você, Jason! - Términus resmungou - Achei que você teria um senso melhor antes de se aliar com os inimigos de Roma!
     - Mas eles não são inimigos...
     - É verdade - interrompeu Piper - Nós só queremos conversar. Se nós pudessemos...
     - Ha - disse a estátua - Não tente usar seu charme comigo, minha jovem. E largue essa adaga, antes que eu a retire de suas mãos.
     Piper olhou para sua adaga de bronze, que ela aparentemente esqueceu que estava segurando.
     - Hum... está bem. Mas como você poderia retirá-la da minha mão? Você não tem braços.
     - Impertinente! - Houve um POP e um clarão amarelo. Piper ganiu e largou a adaga, que agora estava brilhando e soltando fumaça.
     - Sorte sua que acabei de sair de uma batalha! - Terminus anunciou - Se eu estivesse com toda a minha força, eu já teria explodido esse monstruosidade no céu.
     - Espera ai? - Leo andou em direção a Términus e soltou travando seu controle do Wii - Você chamou meu navio de monstruosidade? Eu sei que você não fez isso.
     A ideia de ver Leo atacando a estatua foi o suficiente para tirar Annabeth de seu choque.
     - Vamos nos acalmar. - Ela levantou suas mãos para mostrar que não estava armada - Você deve ser Términus, o deus das fronteiras. Jason me falou que você protege a cidade de Nova Roma, certo? Eu sou Annabeth Chase, filha de...
     - Oh! Eu sei quem você é! - A estátua a encarou com seus olhos brancos - Uma filha de Atena, forma grega de Minerva. Escandaloso! Os gregos não tem senso de decência. Nós Romanos sabemos o lugar certo daquela deusa.
     Annabeth cerrou sua mandíbula. Essa estátua não estava tornando fácil a diplomacia.
     - O que você quer dizer com, essa deusa? E o que tem de tão escandaloso...
     - Está bem! - interrompeu Jason - De qualquer jeito, Términus, nós estamos aqui em uma missão de paz. Nós adoraríamos ter permissão de pousar para que nós...
     - Impossível! - o deus guinchou - Abaixem suas armas imediatamente e se rendam, depois vão embora!
     - Qual dos dois? - Leo perguntou - Se render, ou ir embora?
     - Os dois! - Términus disse - Se rendam, então vão embora. Estou batendo na sua cara por fazer uma pergunta tão estúpida, garoto ridículo! Você sente isso?
     - Wow - Leo estudou a estátua com grande interesse - Você está enrolado. Será que você perdeu algum parafuso? Eu poderia dar uma olhada.
     Ele trocou seu controle do Wii por uma chave de fenda de seu cinto de ferramentas mágico e começou a  bater com ela no pedestal de mármore.
     - Pare com isso! - Términus insistiu. Outra pequena explosão fez Leo soltar sua chave de fenda. - Armas não são aceitas em solo Romano dentro da Linha Pomeriana!
     - O que? - Piper perguntou.
     - Limites da cidade. - Jason traduziu.
     - E esse navio inteiro é uma arma! - Términus disse - Vocês não podem pousar!
     Lá embaixo no vale, uma legião de reforços estavam a meio caminho da cidade. A multidão saindo do fórum é mais de cem agora. Annabeth verificou os rostos e... oh, deuses. Ela viu ele. Ele estava indo em direção ao navio com os braços em volta de outras duas crianças como se eles fossem melhores amigos - um garoto corpulento com cabelo escuro cortado rente a cabeça, e uma garota usando um capacete de cavalaria romana. Percy parecia tranquilo, feliz. Ele usava a mesma capa roxa de Jason - a marca de um pretor.
     O coração de Annabeth fez uma rotina de ginástica.
     - Leo, pare o navio. - ela ordenou.
     - O que?
     - Você me ouviu. Mantenha-nos exatamente onde estamos.
     Leo puxou seu controle para cima. Todos os noventa remos pararam no ar. O navio parou de descer.
     - Términus, - Annabeth disse - não existe regras sobre flutuar sobre Nova Roma, existe?
    A estátua franziu a testa - Bem não...
    - Então nós podemos deixar o navio aqui em cima, - Annabeth disse - Nós usaremos uma escada de corda para chegar ao fórum. Desse jeito o navio não estará em solo romano. Tecnicamente não.
    A estátua pareceu ponderar isso. Annabeth se perguntou se ele não estava coçando seu queixo com sua mão imaginária.
    - Eu gosto de tecnicalidades, - Ele admitiu - Ainda assim...
    - Todas as nossas armas estarão no navio, - Annabeth prometeu - Eu suponho que os Romanos - até mesmo esses reforços que eles estão trazendo - também terão que honrar as regras dentro da Linha Pomeriana se você falar com eles, certo?
    - É claro! - Términus disse - Eu tenho cara de quem tolera quebradores de regras?
    - Uh, Annabeth... - Leo disse - Você tem certeza de que essa é uma boa ideia?
    Ela fechou os punhos para que eles parem de tremer. Aquele calafrio ainda a pressionava. Flutuando bem atrás dela, e agora que Términus parou de gritar e de causar explosões, ela pode sentir uma presença rindo, como se estivesse gostando das más escolhas que ela estava fazendo.
     Mas Percy estava lá embaixo... ele estava tão perto. Ela precisava encontrá-lo.
     - Vai ficar tudo bem, - ela disse - ninguém estará armado. Nós poderemos conversar em paz. Términus vai fazer com que cada lado obedeça as regras. - Ela olhou para a estátua de mármore - Nós temos um acordo?
     Términus fungou - Acho que sim. Pelo menos agora. Você pode descer pela escada até Nova Roma, filha de Atena. Por favor tente não destruir minha cidade.
 

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